Sunday, October 5, 2008

A CRISE


Foge! Olha que a crise anda atrás de ti!
Os capitalistas estão aos papéis
os economistas fazem contas
os bancos fecham
a alta finança está a arder
Foge! Olha que a crise anda atrás de ti!
A crise vai devorar-te
a crise vai torturar-te
a crise veio para ficar
Foge! Olha que a crise anda atrás de ti!
Vai ficar tudo negro
vai ficar tudo morto
vem aí o juízo final!
Foge! A crise anda atrás de ti!
Vais ficar sem dinheiro
vais ficar sem trabalho
vais ficar nas mãos do Estado
Foge! A crise anda atrás de ti!
Fecha-te em casa
com a tua namorada
agarra-te à televisão
mas olha que a crise sabe onde te escondes
a crise vigia todos os teus passos
a crise vai-te apanhar
Foge! A crise anda atrás de ti!
A crise infiltra-se no teu cérebro
a crise não tem remédio
a crise pega-te doenças venéreas
a crise enche-te de terror
Foge! Olha que a crise anda atrás de ti!

Friday, October 3, 2008

O JOGO


As minhas sessões de poesia estão a tornar-se num misto de comício, happening e ritual xamânico e profético. Pretendo eliminar as fronteiras entre o performer e o espectador, provocar o choque, influenciar as consciências, provocar o riso, ridicularizar, inclusivé insultar o público. Tenho consciência de que estou a jogar um jogo, mas é o meu jogo não é o jogo do capitalismo nem do Estado. É o meu jogo. Só entra nele quem quer. Dou-vos a liberdade. A Liberdade Absoluta. Eu tenho saído várias vezes do jogo deles. Como dizia o Jim: estás a meio de uma partida de futebol para a Liga dos Campeões e há uma dessas vedetas que dá um pontapé displicente na bola para fora, sem que ninguém o espere, sem haver substituições, abandona o relvado. O estádio inteiro levanta-se: "Eh pá, o gajo é doido! Ponham na rua esse palhaço imbecil!" E, no entanto, o gajo só queria dizer: isto não passa de um jogo, andamos a correr como imbecis atrás da bola, se ainda fosse atrás de uma mulher...toda a gente, colegas de equipa inclusivé, o insulta, todos o rejeitam da mesma forma que os homens da caverna de Platão ("Alegoria da Caverna") rejeitam o homem que foi capaz de sair da caverna e de ver a luz: também lhe chamam doido, utópico, fantasista quando ele regressa à caverna para contar o que viu no exterior. É esse o preço que temos de pagar quando abandonamos o jogo: a solidão, a imensa solidão: "Solitário, abandona a multidão, segue o caminho que conduz a ti mesmo", dizia Nietzsche. É aí que quero chegar. É aí que temos de chegar. Depois, sim, voltaremos à cidade, à multidão, mais sábios mas correndo ainda todos os riscos.

Thursday, October 2, 2008

E O CAPITAL A ARDER, A ARDER


Presidente do BCE descarta iniciativa semelhante ao plano Paulson
Trichet: actual crise é um acontecimento sem precedentes desde a II Guerra Mundial
02.10.2008 - 21h12
Por AFP, PÚBLICO
Kai Pfaffenbach/Reuters

Trichet pede mais coordenação aos governos europeus
O Presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, afirmou hoje que a actual crise financeira constitui um acontecimento “sem precedentes desde a II Guerra Mundial” e pediu uma maior cooperação dos países europeus para a enfrentar.

“Nada no passado se assemelha ao que assistimos actualmente”, afirmou o líder da entidade central, em entrevista ao canal de notícias France 24, antes de acrescentar: “Os acontecimentos que enfrentamos são provavelmente os mais graves desde a II Guerra Mundial”.

Num discurso próximo do alarmismo, Trichet diz que as economias enfrentam “um fenómeno de grande, grande dimensão” e devem esperar “um período de incerteza absolutamente excepcional”.

Sublinhando que na origem desta crise estão fenómenos que “não deveriam ter acontecido”, como a subida em flecha do crédito malparado nos EUA ou o recurso a instrumentos financeiros duvidosos, o presidente do BCE insistiu na necessidade de “passar em revista todos os elementos do sistema financeiro mundial”, com o objectivo de “proceder a alterações muito profundas”.

Trichet – que vai participar na mini-cimeira convocada pela presidência francesa da UE para debater a crise financeira – disse que os Governo europeus “terão de tomar decisões difíceis e rápidas face às circunstâncias” mas descartou, para já, a adopção de um plano de intervenção pública semelhante ao elaborado pela Administração norte-americana.

“Veremos o que será decidido na reunião de Paris, mas dizer que temos, obrigatoriamente, de imitar o que os americanos fizeram é ingénuo, porque nós não somos os EUA”.

Questionado sobre a forma como a UE deve enfrentar a turbulência, Trichet disse que os Governos devem agir de forma “a que o conjunto dos seus interesses possa ser melhor coordenado”.

Por outro lado, Trichet diz que os riscos de uma subida da inflação foram contidos, “mas não eliminados”, razão pela qual o BCE optou hoje por manter a sua taxa directora nos 4,25 por cento, contrariando os apelos de vários países para uma redução do custo do dinheiro.

Apesar de as taxas interbancárias estarem muito acima deste valor, devido à incerteza que rodeia o mercado, Trichet lembrou que em Inglaterra a taxa directora está nos cinco por cento. “Mas no BCE não somos rígidos e podemos agir a qualquer momento” se tal se justificar, acrescentou.

PÚBLICO

XAMÃ


O Xamã



O xamã é um ser sem regras, não sabe o que vai encontrar em seu caminho. Cada dia, cada momento vive para descobrir o maravilhoso e o horripilante. De uma ou de outra forma sabe que ambas são faces de sua própria visão. Não se apega porque sabe que tudo muda, que tudo é impermanente e se deleita com o desconhecido. O tédio não é parte de sua vida... Seu corpo é frágil porque lida com forças terríveis e magnificentes.

Observa o universo como seu Pai e a Terra como sua Mãe...

Vive em completo desapego, até o ponto de ser odiado... Odiado por não dar importância ao que os demais dão importância. O xamã sabe e só sorri, só olha, só observa.

O xamã é produto do amadurecimento de um coração. Do amadurecimento do espírito. Somente um coração maduro entra no caminho do xamã e, uma vez que se entra, se dá conta de que o mesmo caminho, cedo ou tarde, fará com que seu coração desapareça na imensidão do coração desse maravilhoso universo.

Nota: (Autor desconhecido.)

Wednesday, October 1, 2008

CESARE PAVESE

O INSTINTO

O homem velho, desenganado de tudo,
da soleira da porta, sob o sol cálido,
observa o cão e a cadela a satisfazerem o instinto.

Sobre a sua boca desdentada perseguem-se as moscas.
A sua mulher há muito que morreu. Também ela,
como todas as cadelas, não queria saber disso,
mas não lhe faltava o instinto. O homem velho cheirava o ar
- ainda tinha dentes -, a noite vinha,
metiam-se na cama. Era bonito o instinto.

O que agrada no cão é a grande liberdade
De manhã à noite vagueia pela rua;
e ora come, ora dorme, ora monta cadelas:
não espera sequer pela noite. Raciocina
com o faro, e os cheiros que sente são seus.

O homem velho recorda-se de uma vez
em que o fez como os cães, de dia, no meio duma seara.
Já não sabe com que cadela, mas lembra-se do grande sol
e do suor e da vontade de nunca mais acabar.
Era como numa cama. Se os anos voltassem,
gostaria de o fazer sempre no meio duma seara.

Desde a rua uma mulher e pára a olhar;
o padre passa e volta-se. Na praça pública
pode-se fazer tudo. E até a mulher,
que tem pudor em voltar-se para o homem, pára.
Só um rapaz não tolera o jogo
e faz chover pedras. O homem velho indigna-se.

(Cesare Pavese, Trabalha Cansa, Trad. e Introdução de Carlos Leite, Cotovia, 1997, pp. 265-267)

Cesare Pavese nasceu há precisamente cem anos em Santo Stefano Belbo; estudou em Turim, tendo apresentado uma tese sobre Walt Whitman. Pertenceu ao Partido Comunista Italiano e trabalhou como tradutor para a editorial Einaudi. Poeta e ficcionista, dele estão traduzidos para português vários livros como o seu diário, Ofício de Viver, ou as narrativas A Lua e as Fogueiras, Férias de Agosto, A Praia, O Verão, A Guitarra Quebrada, O Diabo sob as Colinas, Noites de Festa (estas últimas editadas nos anos 60 e 70 estão esgotadas). A sua poesia está compilada no volume Trabalhar Cansa (Cotovia). Suicidou-se a 27 de Agosto de 1950.

Retirado de http://discursodosdias.blogspot.com

LEVI CONDINHO

LEVI CONDINHO


Juro uma vingança grave sobre
toda esta falta de viver
juro uma treva um nó de madeira obsessivo
uma mancha de podridão na abóbora
ou no pepino enroscado na terra aguada
juro uma unha roxa no rouxinol amado
um ponto negro nas tuas nádegas de concurso
um baque no peito uma recus no planeta mais visível
juro o estalar da pedra nas patas do sardão
juro o próprio sardão
juro os teus mamilos na raiva do silêncio
juro o bornal apodrecido de Kerouac em Bordéus
onde a viagem morreu na baiúca do vinho
juro o vinho (a) martelo no resvés das pedras calcárias
basalto cilício cortiço de zângões
juro as águas de velhas torneiras ferrugentas
e palavras e signos e símbolos sublimes
odeio Céline do meu lado esquerdo
e amo Céline do meu lado direito
ficando por cima como arcanjo astuto
juro mordendo este copo esta trégua este luxo
este ser disponível para tudo abrir
caixa de veludo calo do mindinho erva de plantar
no jardim falido de um ânus loiro profundo

ânus olho juro
Levi Condinho nasceu em 1941, em Bárrio (Alcobaça). Publicou, entre outras obras Para que Alguns me Possam Amar (1977), Saxofone (1981), Tentáculos (1981). Em Roteiro Cego faz uma antologia da sua produção poética entre 1965 e 2000. É também tradutor e crítico, com vários ensaios publicados na Colóquio/Letras.
Retirado de http://discursodosdias.blogspot.com

MANIFESTO/CÂNTICO ÀS GAJAS (BOAS)

MANIFESTO/CÂNTICO ÀS GAJAS (BOAS)

Ontem tive uma daquelas conversas intermináveis acerca do destino do Homem e da Humanidade. O meu amigo diz que estamos aqui para sofrer o menos possível. Mas para quem tem sede de infinito, para quem acredita no Amor e na Liberdade sem limites isso não deixa de fazer confusão. A verdade é que quase ninguém tem este tipo de conversas. A verdade é que para ser um profeta tenho de partir muita pedra. Falar para milhares de pessoas: eis a meta. Chegar à televisão e dizer a palavra. A palavra-chave é o tédio. Eis o que vejo: TÉDIO. Com ou sem trabalho. Com ou sem dinheiro. Talvez as gajas façam a diferença. Mas elas têm de ser generosas para nós poetas. Mesmo que estejamos na miséria, sobretudo aí. Mesmo que estejamos na loucura. Elas (gajas) têm de dar-se a nós poetas e pensarem menos no conforto e na segurança. Têm de se dar a nós porque nós trazemos a divindade e a sabedoria. Têm de se dar a nós em vez de se darem aos futebolistas. Têm de se dar a nós como se dão a Dionisos porque ficam loucas como as bacantes. Têm de perceber que o trabalho não serve para nada. Têm de perder o medo que sentem de nós, têm de dançar na montanha, na floresta e na cidade, têm de fazer fogueiras e queimar o dinheiro. Sim, talvez a salvação esteja nas gajas. As gajas têm de se deixar levar pela loucura, têm de ser xamânicas e dionisíacas. Por isso, cantarei loucamente as mulheres. Por isso, lhes dedicarei hinos. Por isso, serei Dionisos.