Thursday, November 6, 2008

GLÓRIA


A loira ginga na estrada. O farmacêutico saúda-me. Cá estou eu na "Motina" a escrever. Eis a minha sina. Não me dá sequer para escrever poemas. Só estas merdas. Há qualquer coisa que me atormenta. A escrita não flui desbragada. Começo a repetir-me. Que maçada! Preciso de ler para escrever. Tenho, de novo, Platão à minha frente. Divino Platão, traz-me a chama dos deuses. Divino Platão, faz de mim um Poeta a valer. Não me faças apenas escrever coisas com alguma piada que fazem o pessoal rir. Mas é importante que o pessoal ria. É importante pôr o pessoal a divertir-se. Não quero contribuir para a pasmaceira. Eu, que tanto critico o tédio, não posso contribuir para o tédio. Eh, pá, agora vou ser narcisista. Gostais de mim, gostais mesmo de mim? Ou estais apenas a aturar-me? Quem sou eu nesta confeitaria, neste bar? Tenho o mundo a meus pés ou não passo de um pobre desgraçado? Ou não serei uma coisa nem outra, qualquer coisa de intermédio? Porque raio estar sempre entre a merda e o sublime? Era bom estar sempre em glória, receber palmas a todo o momento. Mas não. As palmas tornar-se-iam rotina. Cansar-me-ia das palmas e da glória. Por falar em Glória, há aqui alguma gaja que se chame Glória? Bem sei que o texto se está a tornar comprido para ser lido em público. Anda cá, Glória!

Tuesday, November 4, 2008

COMBOIO-2


Acabo de estar em Famalicão com a Cláudia. A Claudinha tenta perceber-me e percebe-me. Se não der para mais nada, dá para andar de mão dada ou de mão dádá. A gaja do lado dormita e mostra o rego das mamas. O revisor controla. Qualquer dia algum controleiro confisca os meus escritos. Ou alguma dama ofendida mete-me em Tribunal. O poeta infame passeia-se de mão dada com a Claudinha em Famalicão. As gajas boas entram na Trofa. O fim de semana está a acabar. O revisor percorre o comboio a controlar. Simpatizo mais com os revisores da CP do que com os "picas" do metro. Há outra postura. O mormon lê a Bíblia. Eu acabei a "Odisseia". Estou tão próximo dos outros passageiros que eles podem ler o que estou a escrever. Mal sabem que escrevo sobre eles. O mormon pousa a Bíblia. Outras agarram-se ás revistas. O que vale é que a gaja do lado está a dormir. Ñão deixava de ter piada uma discussão acerca do escritor que escreve. Uma revolta no comboio contra o escritor que escreve sobre as incidências de uma viagem de comboio Famalicão-Porto. Que querem? Dá-me para escrever. Não nasci assim mas tornei-me assim. Longe vão os tempos do Colégio da Trofa e dos liceus Sá de Miranda e Alberto Sampaio de Braga. No ano do Alberto Sampaio, 12º, comecei a ter com mais gente as conversas que só tinha com os meus melhores amigos do liceu: o Jorge e o Rui. Já falava então, sei lá, de coisas poéticas e filosóficas. Teria uma conversa interessante para as meninas. Comecei a pôr em causa o maniqueísmo do Rambo e de outras coisas. Comecei a ler livros. Depois, no 1º ano da Faculdade de Economia já lia muito. Enfim, o homem vai-se construindo. Era eu, então, um jovem promissor. Mas já lá estava a coisa do Morrison, a semente. Comecei a escrever algumas coisas de jeito. A querer mostrá-las. O que é feito desse rapaz? Do rapaz em quem os pais depositavam esperanças? Revoltou-se contra o número, revoltou-se contra a norma, revoltou-se. E nunca mais voltou a ser o mesmo.

COMBOIO


Estou no comboio. Uma gaja boa senta-se à minha frente caída do céu. Coloca os óculos escuros. O que lhe irá na cabeça? Nunca sei o que vai na cabeça das gajas. Agora apalpa o telemóvel em vez de me apalpar a mim. Estamos a chegar à Trofa- terra da minha infância. Raramente falo da Trofa. Não sei porquê. A minha vida também era casa-Colégio. Mas podia falar mais da Trofa. Talvez um dia me façam uma estátua. A gaja cruza as pernas. Eu também. Raramente falo da minha infância. Brincava muito com os meus irmãos, com o Filipe, com o Picas. No colégio era muito introvertido, salvo na 4ª classe em que saí um bocado da casca. Mas depois voltei a entrar. Pensava muito. Inventava mundos. Desenhava bem. As mulheres ficam loucas perante a maternidade. A gaja desabotoa a camisa para me dar de mamar.

Sunday, November 2, 2008

A DITADURA DO ECONÓMICO


Vivemos sob a ditadura do económico, do mercantil. Tudo se reduz à linguagem do compra e vende, do orçamento, das contas. (Interrompo a tese para olhar para o cu da vizinha). É tão pobre, tão mesquinha a linguagem do económico. Não sou um número! Não sou uma conta! Não sou um orçamento! Não sou uma mercadoria! Merda! Sou um homem! Sou um homem que sente e que pensa. Sou um homem que olha para as mulheres e que as deseja. Não me venham quantificar esta merda! Não estou cotado na bolsa. Não estou no mercado. Afastai-vos de mim, ó economistas! Tirai de mim as vossas manápulas! De mim não levais nada! Sou um homem! Não sou uma nota nem um cartão multibanco! Não sou uma conta bancária! Não sou aquilo que quereis que eu seja. Sou livre! Sou absolutamente livre.

Saturday, November 1, 2008

ERNESTO CHE GUEVARA


Admiro Ernesto Che Guevara. Gostava de ser como ele. Mas não sou. O Che era um guerrilheiro. Eu, quando muito, sou um guerrilheiro da palavra. Não sou organizado nem atino com organizações. Já o disse. Quando muito acredito em pequenos grupos, em movimentos espontâneos. E tenho uma concepção dionisíaca, algo messiânica das coisas. Acredito que se for passando a palavra a coisa pode ir. Acredito no xamã, acredito no papel revolucionário do poeta. Acredito que incomodo, que posso abalar as consciências. É esse o meu papel. Em vez de ir combater para a floresta, vou combater para os bares.

JORNAIS


O gajo do lado lê os jornais todos. De ontem, de anteontem e de hoje. Isso é que é estar bem informado. Para combater o tédio agarramo-nos aos jornais. Mas os jornais também são tédio. As notícias não me excitam como as gajas boas. O gajo agora come e bebe, largou os jornais. Sim, comidinha e bebida acima de tudo, depois voltaremos a comer os jornais.
A morte é a tua mãe.