Saturday, November 8, 2008

DIONISO CONTRA O MERCADO


BPI:4,6% BES:1,9% BCP:0,4% EDP Renováveis: 9,07% EDP-2,2% Galp Energia: 2,02% PT: -1,54% Sonae Indústria:-2,58%
O que é que isso me interessa? Em que é que isso contribui para a minha felicidade? Estou dependente de percentagens, de números que nada me dizem? Serei eu próprio um número, uma percentagem? Sou apenas um item nas contas do OGE ou nem isso? Ao que nós chegamos! Até quando esta ditadura das estatísticas, dos economistas? Por que raio me hei-de submeter a coisas assexuadas? Não, recuso-me a ser reduzido à condição de investimento! Não estou à venda no mercado! Tenho asco à palavra "mercado"! Tudo o que vem da lógica do mercado é podre, mete nojo! Não me venham falar em mercado! Enquanto o mercado prevalecer o homem não será homem! Não sou um sabonete! Não me vou deixar vencer pelo império dos sabonetes! Merda! Olho para o Arlindo e tenho pena. Sempre agarrado à caixa registadora! Sempre agarrado à merda dos trocos! Sempre escravo do mercado! Foi para isto que nascemos? Foi para isto que tivemos a benção da vida? Que porra de vida é esta? Percentagens e mais percentagens! Sócrates era uma percentagem? Nietzsche era uma percentagem? Henry Miller era uma percentagem? Por que raio se há-de um gajo entregar à mera sobrevivência e dar umas risadas, de vez em quando, para disfarçar? Por que raio não se há-de gozar esta merda na sua plenitude, sem estar sempre a fazer contas? Passamos a vida a fazer contas, dos benefícios e custos disto e daquilo sempre com a calculadora na mão e na cabeça. Que porra de vida é esta? É isto a vida? Porque raio não vem Dioniso? A única coisa que nos excita são as mulheres mas elas, na maior parte das vezes, são inacessíveis. Que prazer, que bem nos traz esta merda? Foi para isto que nascemos? Vá lá que ainda há pessoas que nos admiram, que gostam de nós mas, de resto,...mais valia andar sempre bêbado, sempre anestesiado para a realidade mas nem tenho a merda do dinheiro para isso! Ou, por outro lado, antes enlouquecer de vez. Sei lá, fariam pouco de mim. Foi para isto que vim ao mundo? Leio e escrevo, vou-me aguentando. Mas vim ao mundo para aguentar, para sobreviver? Esta merda não vem nos panfletos, nos programas dos partidos políticos. Os partidos que se preocupavam com estas merdas deixaram de se preocupar. Os partidos têm uma linguagem rasteira, superficial, eleitoralista, não vão ao fundo das questões, não vão ao essencial. O essencial é o combate entre a Vida e a sobrevivência, entre Dioniso e o mercado. Talvez o amor, o amor autêntico possa salvar esta merda.

O AMOR- 27


Vinde, deuses,
quero estar possesso
como Nietzsche
dai-me o amor!
O amor por uma mulher
o amor entre os homens

Vem, cerveja,
quero ficar divino
quero escrever O Poema
que permanece
que entontece

Vinde, deuses,
fazei-me dançar
berrar ao infinito
trazei-me o amor
que não está
nos anúncios televisivos
que não está na bolsa
que não está no mercado
que não é contabilizado
que não está
no Orçamento Geral do Estado

Vinde, companheiros,
brindemos ao amor
o amor tem andado esfarrapado
o amor tem andado amordaçado
o amor tem andado a mendigar
mas o amor continua
dentro de nós

Vinde, camaradas,
afinal não precisamos do partido
nem de comités centrais
nem tão pouco de disciplina
ou militância
o que importa é derrotar o ódio
o amor está dentro de nós

O amor!
Sim, o amor com que me tocas
o amor que me põe em cima
que me faz acreditar
o amor...

EIS O POEMA


Eis o poema
que fala de ti
toda a ternura
nasce aí

de mãos dadas
trocámos palavras
amor nosso
santa loucura

é o poeta e a fada
que interpreta
que ampara
assim a vida
vale a pena.

BACANAL


Bacanal


A vizinha de cima ameaça chamar a polícia
Se o vizinho de baixo continuar a dar
Quecas ruidosas com a brasileira
O vizinho de baixo justifica-se
Dizendo que é da natureza

Resultado:

De agora em diante, o vizinho de baixo
Pede licença cada vez que dá uma foda
À vizinha de cima
A vizinha de baixo está em cima
Do vizinho de cima
O policia em cima da brasileira
E o prédio é um bacanal.

Bacanal no Prédio - Um Poeta a Mijar - A. Pedro Ribeiro

Thursday, November 6, 2008

VIVO


Tenho de escrever. Para criar, para me manter vivo. Antes que a noite venha. Antes que a morte venha. Platão dizia que só nos deveríamos embriagar depois dos 40, só aí dedicaríamos as festas a Dioniso. Pois, cá estou eu nos 40. Já meio fodido do fígado. Esta noite tive um ataque de falta de ar. Quantos anos mais irei durar? Que se foda! O essencial é manter-me vivo. Que se fodam as preocupações! O que interessa é que a coisa flua, que as ideias nasçam. E entra a D. Rosa. A confeitaria não é a mesma sem a D. Rosa. A noite vai caindo lá fora. A Joana não mostra o cu. Entra um engravatado. Nunca atinei com gravatas. Que se lixe, os homens não se medem pelas gravatas. O Rocha, de vez em quando, usa gravata e é meu amigo. O Rocha é, à falta de melhor, a minha musa. Deixei de me entusiasmar pelas bandas. Há para aí tantas bandas que um gajo não se consegue destacar. (Ai, aquele cu ao balcão faz-me sonhar!) Só se fizer aquelas performances inesquecíveis como a de Paredes de Coura. Só se voltar ao palco.
Estou a atravessar uma fase muito púdica e romântica. Contento-me em dar a mão ás gajas.

QUERO O AGORA!

Merda, não estou bêbado.
Não consigo ficar bêbado.
Já estou com saudades de uma boa bebedeira.
Carlos, traz-me mais uma!
Merda, já nem escrevo
sobre a merda do àlcool.
O álcool que me põe em cima.
A àgua e os sumos aos doentinhos.
O álcool para o Poeta.
Já estou farto de queixinhas.
Àlcool para o poeta!
A vida são dois dias.
Que importa o amanhã,
se amanhã posso estar morto
ou amarrado a uma cama.
Quero o agora!
Quero o agora!
Quero aqui, agora,
a felicidade e a glória!
Porque raio se há-de deixar
tudo para amanhã?
Que se foda o futuro!
Que se foda o amanhã!
Quero o agora!

A. Pedro Ribeiro, Vilar do Pinheiro, 6.11.2008