Thursday, November 13, 2008

ATRÁS DA LOUCURA


"'We want the world and we want it...Now!', gritou o Jim Morrison e todos os sinos, todas as missas, todas as convenções, todas as ilusões, todas as falsas convicções, todas as aparências, todas as conveniências, todas as normas, todas as infâncias acabaram ali, naquele momento(...). E, a partir daí, tive de ir sempre atrás da loucura, até hoje."António Pedro Ribeiro------

COM UM ABRAÇO AO LUÍS

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos
e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião
fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença
que lhe atacava os órgãos genitais,
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira,
que o Infante D. Henrique
foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira
uma reles imitação do Príncipe Valente


Portugal
Não imaginas o tesão que sinto
quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer
que nos espera um futuro de rosas...


Portugal

Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos
a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso
sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador


Portugal

Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir

Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito
e idiota como tu
mas que tem o coração doce
ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros
para poder espremer à minha vontade


(....)


Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe

Portugal
gostava de te beijar muito
apaixonadamente
na boca...


Jorge de Sousa Braga (extracto)
mais poemas em www.pedacosdalma.blogspot.com

Tuesday, November 11, 2008

OS POETAS


POETAS



Descemos à cave

para celebrar o poema

trazemos o fogo

que roubámos aos deuses

brindamos à vossa mesa



Somos da raça dos malditos

dos renegados de todas as eras

connosco as damas não estão seguras

connosco o sangue ferve de raiva



Os negócios dos homens nada nos dizem

entre faunos e sátiros

erigimos a nossa morada

o homem vulgar não nos atinge



Os nossos festins não conhecem limites

estamos irmanados com a loucura



O nosso grito é inumano

Vem do centro da Terra

O riso é satânico dionisíaco



Não usamos relógios

a nossa hora é o Grande Meio-Dia

as regras dos homens nada nos dizem

só as seguimos, quando as seguimos,

por conveniência



Entramos no espírito dos homens

convertemos as mulheres em bacantes

semeamos o caos e a anarquia



O sossego e o tédio amolecem-nos

tornam-nos tímidos

mas o vinho robustece-nos

torna-nos xamãs

irmãos dos deuses

Poetas.

D. JUAN


Vir ao café
sentar-me a teu lado
e esperar que te refiras
ao livro
que tem a minha cara
ouvir-te falar
ficar sem palavras
e sem álcool
ficar a saber quem és,
minha cara

Chegar ao dia seguinte
arrependido
certo de que agora tenho
as deixas certas
e canalizar as energias
para a gaja
que está de costas
no café
onde tudo começa
e ela olha
talvez me pergunte
pelo livro
que tem
a minha cara.


Vilar do Pinheiro, Motina, 11.11.2008

ORFEU

Voltei ao "Orfeu". Agora só se vêem por aqui velhos e futeboleiros. Em tempos vinham para aqui jovens estudar. Isto ficava cheio. Agora na parte de cima há uns gatos-pingados a ler jornais desportivos. Falta cá o Rocha para fazer uma análise racional e sociológica.

Sunday, November 9, 2008

ESBOÇO DE MANIFESTO


Continuo a acreditar na revolução, numa revolução sem dirigentes, sem partidos, sem disciplina. Uma revolução espontânea, dionisíaca, que nasce do caos. Continuo a descrer nos movimentos colectivos organizados porque toda a organização tende a ter chefes, poderes organizados. Acredito que, como dizia André Breton, as ideias de revolução e de amor, juntas, oferecem possibilidades ilimitadas. Acredito numa força divina- que vem das ideias de amor, revolução e liberdade-, dionisíaca que está dentro do espírito do homem, que está no xamã. Acredito numa revolução que se faz à margem da racionalidade.

ARLINDOS


Que vida leva o Arlindo? Trabalho. Trabalho. Trabalho. E depois ir para casa olhar para a televisão. Dormir-trabalho-televisão. Que puta de vida a do Arlindo. Que puta de vida a dos Arlindos deste país. Incapazes de uma conversa com elevação. Incapazes de se deleitarem com um livro. tenho pena dessa gente. Sempre a fazer contas, sempre agarradinhos ao dinheiro, aos preconceitos e a Cristo Nosso Senhor. Se ele voltasse seriam os Arlindos os primeiros a interná-lo num hospício. Não! Não vos invejo. Não troco a minha vida pela vossa. Já disse: tenho pena de vós. Não nasci para isso. Aprendi a ser livre com Zaratustra.