Friday, June 19, 2009

AS GAJAS PASSAM


Queria beber mais
mas não posso
as gajas passam
mas não são minhas
o gordo imbecil
preenche a televisão
afinal, lá fora
há uma gaja
que dá vinho de borla
há que aproveitar!
Não perdi tempo
aqui está o vinho
na minha taça
quero uma gaja
para passar a noite
quero uma gaja
para ir noite fora
quero uma gaja
que me pague os copos
as gajas passam
mas não são minhas
também trazem
o vinho de borla
se tudo fosse de borla
é que era fixe
até já tremo das mãos
as gajas passam
mas não são minhas
as gajas passam
mas não são minhas
as gajas passam
mas não são minhas...

Wednesday, June 17, 2009

CHARLES BUKOWSKI

UM POEMA CRUEL

eles continuam a escrever
a despejar poemas –
jovens rapazes e professores universitários
mulheres que bebem vinho toda a tarde
enquanto os maridos trabalham,
eles continuam a escrever
com os mesmos nomes nas mesmas revistas
cada ano a escreverem pior,
publicam colectâneas de poesia
e despejam mais poemas
parece um concurso
é um concurso
mas o prémio é invisível.

eles não escrevem nem contos nem ensaios
nem romances
apenas
despejam poemas
todos parecidos com os dos outros
e cada vez menos originais,
e alguns dos rapazes cansam-se e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho toda a tarde
nunca, mas mesmo nunca, desistem
e chegam outros rapazes com novas revistas
e há troca de cartas entre poetas e poetisas
alguns chegam a foder
e tudo é exagerado e aborrecido.

quando os poemas saem
eles reescrevem-nos
e enviam-nos para a próxima revista na lista,
e fazem leituras
todas as que conseguem fazer
a maior parte de borla
na esperança que alguém repare neles
que alguém os aplauda
lhes reconheça o talento
os felicite
eles estão convencidos da sua genialidade
há muito poucas dúvidas,
e muitos vivem no Grande Porto ou Grande Lisboa,
e as suas caras são como os poemas que escrevem:
semelhantes,
e conhecem-se uns aos outros e
reúnem e odeiam e admiram e escolhem e expulsam
e continuam a despejar mais poemas
mais e mais poemas
mais e mais poemas
o concurso dos pasmados:
tap tap tap, tap tap, tap tap tap, tap tap…

O SEXTO POEMA


Afinal hoje é que bato todos os recordes
já vou no sexto poema
e não dou sinais de fadiga
até estou a estrear o novo caderno
se estou em delírio
é um delírio contido
pelo menos até ver
é certo que há bocado na confeitaria
já estava em êxtase
agora estou em comunhão com os elementos
os gatinhos trepam as telhas
e fazem-me voltar à infância
esta era a casa da minha avó
não me tornei um profissional empenhado
como o meu pai ou como o meu tio
sempre fui preguiçoso
mas a preguiça é necessária à criação
os meus livros chegam a pouca gente
lá vou aparecendo nos jornais e nas feiras do livro
continuo a postar estas coisas no blogue
5 ou 10 gajos lêem
o que já não é mau
há quem prefira ficar no anonimato
as pessoas sabem que escreves
mas desconhecem a tua obra
as pessoas trabalham
e cansam-se
e tu escreves estas merdas
não és mais nem menos do que eles
apesar de, às vezes, te sentires sublime.

O PROFETA


Sou uma espécie de profeta
que escreve na confeitaria
à minha frente tenho o "Plexus" de Henry Miller
e o "Junky" de William Burroughs
as pessoas da aldeia olham para mim
como uma "avis rara"
um homem que passa a vida a escrever e a ler
e que só fala com o barbeiro e com a D. Rosa
um homem sem horários e sem trabalho
que se conheça
um homem de poucas palavras
que talvez um dia se vire para a multidão
e comece a pregar
um homem que vem dos tempos bíblicos
ou de Camelot ou da Grécia
um homem que às vezes vai à cidade
ter com os amigos
um homem de poucos sorrisos
que talvez esconda uma vida dupla
um homem que é simpático
mas não dá confiança
um homem que não entra
nas conversas da vidinha
um homem um bocado esquisito
que não liga ao dinheiro nem à riqueza
um homem tímido
de quem se desconhece a religião
um homem que, de longe a longe,
tem umas saídas que ninguém entende
como a de espetar um paralelo no vidro
da Junta de Freguesia ou de aparecer de madrugada
completamente bêbado caído na estrada
histórias do passado que já quase
ninguém lembra.

Tuesday, June 16, 2009

NIETZSCHE


A Minha Felicidade

Depois de estar cansado de procurar
Aprendi a encontrar.
Depois de um vento me ter feito frente
Navego com todos os ventos.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

NIETZSCHE

Ecce Homo

Sim, sei de onde venho!
Insatisfeito com a labareda
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se luz,
Carvão aquilo que abandono:
Sou certamente labareda.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

NIETZSCHE


Vocação de Poeta

Recentemente, ao repousar
Sob essa folhagem
Ouvi bater, tiquetaque,
Suavemente, como em compasso.
Aborrecido, fiz uma careta,
Depois, abandonando-me,
Acabei, como um poeta,
Por imitar o mesmo tiquetaque.

Ouvindo assim, upa,
Saltar as sílabas,
Desatei de repente a rir,
Durante um bom quarto de hora.
Tu poeta? Tu poeta?
Estarás assim mal da cabeça?
«Sim, senhor, você é poeta»,
Diz Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros.

Quem espero eu sob este arbusto?
Quem estarei a espreitar como um ladrão?
Uma palavra? Uma imagem?
Logo a minha ruína aparece.
Nada do que rasteja, ou que saltite
Escapa ao impulso dos meus versos,
«Sim, senhor, você é poeta»,
Diz Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros.

A rima é como uma flecha,
Que temor, que tremor,
Ao penetrar no coração,
Lagarto a contorcer-se!
Morrereis assim, pobres diabos,
Ou ficareis embriagados,
«Sim, senhor, você é poeta»,
Diz Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros.

Versículos informes que se atropelam,
Pequenas palavras loucas, que efervescência
Até que, linha a linha,
Pendeis todas do meu tiquetaque.
Haverá espantalhos
A quem isso diverte? Os poetas serão impiedosos?
«Sim, senhor, você é poeta»,
Diz, Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros.

Troças, Pássaro? Apetece-te rir?
O meu cérebro já tão doente,
Estará o coração ainda pior?
Ah! receia, teme o meu rancor.
Mesmo no íntimo da cólera,
O poeta rima a direito.
«Sim, senhor, você é poeta»,
Diz Pic, o Pássaro, encolhendo os ombros.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"