Friday, June 26, 2009

JIM MORRISON


Depois destes anos todos chego à conclusão que é com Jim Morrison que me identifico mais. Sucessor e leitor dos beatnicks, Morrison já dizia que "se a minha poesia pretende atingir alguma coisa, é libertar as pessoas dos limites em que se encontram e que sentem". Jim foi um revolucionário mas não um revolucionário tradicional. O poeta dos Doors apelou para o caos, não tinha uma cartilha pré-definida, não tinha de estar sempre lúcido nem de se portar sempre bem. Apelou para o caos porque entendia que era esse o caminho para a luz, para a liberdade. Deu ao rock a dimensão teatral. Era um xamã, aquele que entrava em contacto com os deuses e com a loucura. Não se contentava em cantar a paz e o amor como os hippies. Achava-os ingénuos. Queria chegar lá mas achava que tínhamos de atravessar o caos, "atravessar para o outro lado". Percorreu a estrada do excesso para alcançar a sabedoria, como indicou William Blake. Quis ultrapassar os limites. Entendia que a vida não se resume a uma fórmula única e irreversível, ao ganhar dinheiro. Revoltou-se contra a autoridade, contra a polícia. Foi um espírito livre, um menino e um bailarino no sentido nietzscheano.

Thursday, June 25, 2009

MAIAKOVSKI

a confraria dos escritores / vladimir maiakovski


Sem dúvida jamais me habituarei
a instalar-me na esplanada do «Bristol»,
beber chá,
contar histórias verso a verso –
tenho vontade de entornar os copos
e de trepar às mesas.
Escutai,
confraria literária!

Estais aí sentados,
os olhos mergulhados na chávena de chá.
Os vossos cotovelos estão luzidios à força de escrevinhar.
Levantai os olhos dos vossos copos por terminar.
Libertai as vossas orelhas das guedelhas.

Vós
colados ao papel
das paredes,
meus caros,
que fazeis vós com o verbo?
Sabíeis
que quando não escrevia
François Villon
era bandido?

Vós
que sois prudentes
mesmo para agarrar numa faca de cortar papel,
pensar que é a vós que está confiada a beleza do mais magnífico dos séculos!

Escrever ainda?
Hoje
a vida
é cem vezes mais interessante
mesmo a do último ajudante de notário.

Senhores poetas,
não estais já fartos
das páginas,
dos palácios,
do amor,
dos bosques de lilás?
Se chamam
criadores
a pessoas como vocês –
então quero lá saber da arte em geral.

Prefiro abrir uma loja.
Irei à Bolsa.
Os flancos eriçados com espessas toalhas.
Irei esvaziar a alma
berrando canções de bêbado
num privado de cabaré.

Será que uma pancada pode ter êxito sob os tufos de cabelo?
Um só pensamento
habita estes pêlos que nunca mais acabam:
«Pentear-se? Para quê?!
Por um momento não vale o esforço,
quanto a estar
eternamente bem penteado
é impossível».



Vladimir Maiakovski
33 Poesias
Quasi Edições, 2008
tradução de Adolfo Luxúria Canibal
por luís f. nunes no dia 25.6.09 0 comentários

retirado de http://mal-situados.blogspot.com

Wednesday, June 24, 2009

O POETA


Nunca tiveste jeito para a vida prática
sempre foste desastrado com as ferramentas
e com as tarefas domésticas
além disso, sempre foste preguiçoso
o teu pai chamava-te a atenção
mas, se calhar, não foi para isso
que realmente vieste ao mundo
se os poetas tivessem o reconhecimento
que tinham na Grécia
a esta hora já eras um rei
nem sequer és um poeta como os outros
daqueles que escrevem uns versos
e publicam uns livros
e se contentam em aparecer nas boas editoras
e nas Feiras do Livro
e nos jornais e na televisão
tu queres mais
tu queres a glória
mas também o sublime
o espírito, a divindade
é isso que te mantém vivo
é isso que te faz correr
não precisas de estar com falsas modéstias
és um poeta
daqueles que também são profetas
daqueles que pregam na praça pública
daqueles que falam do alto da burra,
como dizia o teu pai
é por isso que estás aqui
é por isso que permaneces aqui
até que o espírito te leve
para outras paragens.

A SELECÇÃO DOS POEMAS


Há muito tempo que não deixava
um poema a meio
mas voltou a acontecer
estes poemas são todos capítulos
da mesma história
poderia escrevê-los em prosa
dividi-los em capítulos
e fazer um livro
mas há muito tempo que não deixava
um poema a meio
não deixa de ser estranho
não conseguir continuá-lo
nestes últimos poemas
tenho-me debruçado sobre o processo da escrita
sobre o acto de criação
a matéria-prima já existe na cabeça
basta passá-la para o papel
o processo nem sempre é racional
há coisas que escapam à razão
que vão contra a razão
o poeta está centrado em si próprio
e vai descrevendo o que se passa
à sua volta
a brasileira que varre
a patroa que se masturba no escritório
a gorda que vai ao WC
mas há coisas que não são descrições
que saem da cabeça do poeta
já tenho poemas e outros textos
mais do que suficientes
para fazer outro livro
até dois
mas tenho de seleccioná-los
o que não se afigura fácil
já são tantos
e eu nem sequer sou o melhor seleccionador.

Tuesday, June 23, 2009

O ESPÍRITO-2


Estar em permanente estado criativo
ser o próprio acto da criação
ser a própria Criação
o próprio Criador
em comunhão com as árvores
com os frutos
com a Terra
colher o fruto da Àrvore do Conhecimento
desafiar Deus
ser o próprio Deus
aquele que procura

olhar para os animais
amá-los como iguais
ser o criador e a criatura
deixar a vida rolar
deixar os gatos correr
sem interferir
ir ao fundo de mim mesmo
conhecer-me
eis tudo
o espírito.

Monday, June 22, 2009

INGEBORG BACHMANN


ingeborg bachmann / uma espécie de perda








Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.








ingeborg bachmann
o tempo aprazado
(últimos poemas 1957-1967)
trad. judite berkemeier e joão barrento
assírio & alvim
1992

in http://canaldapoesia.blogspot.com

Saturday, June 20, 2009

MIÚDA


Miúda
Que há dois, três anos
Eras criança
E que agora me provocas
A mama meio desnudada
Gingando as ancas
A caminho do WC.

Miúda
Que me entonteces
Depois das cogitações revolucionárias
E das sedes vandalizadas

Miúda
Que me prendes ao café
Onde permaneces
Ao sabor da música carnavalesca
Que ecoa na cidade que janta deserta.

Vila do Conde, Carnaval 2004.

A. Pedro Ribeiro