Saturday, July 12, 2008

blogues direitinhos


Já me irritam os blogues direitinhos, lavadinhos, cheios de picuinhices e de referências literárias. Sou um gajo punk. Ouço os Sex Pistols e os Clash. Vomito poesia, mijo poesia. I just wanna be l'anarchie. Não quero ser intelectual.

A ALDEIA ESTÁ DESERTA

P'ROFISSÃO


Qual a minha profissão?
Leitor. Leio, devoro livros todos os dias. E sou poeta. Que raio mais querem que faça? Não ganho um chavo por isso. E as barbas crescem.

MOTINA


Entro triunfal na "Motina"
o vizinho saúda-me
por estar vivo
ninguém me pergunta se trabalho
ou se vivo à custa da Segurança Social
a empregada sorri
os transeuntes perguntam pelo meu livro
ando outra vez speedado para o mundo
as barbas crescem
e as conversas das velhas
já não me atingem
estou para além
e as gajas boas
falam ao telefone.

Thursday, July 10, 2008

ANTÓNIO JOSÉ FORTE


António José Forte


O Poeta em Lisboa

Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magntfico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos,
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

ANTÓNIO MARIA LISBOA


"Projecto de Sucessão

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra


Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos


Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em familia
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias. "

De António Maria Lisboa

Tuesday, July 8, 2008

PIVA


O jogo gratuito da poesia

Todo poeta é marginal, desde que foi expulso da República de Platão

" Há campo para todos. Caminhos
não marcados a ninguém..."
Hölderlin

O fazer poético passa pelo corpo e pela cama. "A poesia se faz na cama como o amor..." Isto para começar a conversa. A palavra registrada em livro é mera extensão (sublimada) do que sobrou da Orgia. Todos nós somos labaredas provocadas pelo curto-circuito do Desejo. O resto é balacobaco, isto é, literatura. Dante é pra ser relido numa sauna rodeado de adolescentes. Não num escritório-abrigo-anti-atômico. O vampirismo descobriu o desbunde, o marxismo e a linguagem caricata. Henri Michaux já deu o recado: conhecimento através dos abismos. Inferno, Purgatório e Paraíso são uma coisa só. Mastigue cogumelos e Veja. Nenhuma regra: Ver com os olhos livres. Assim o curumim aprendeu o gosto de todos os espíritos. O assassinato também pode ser a ordem do dia. A blasfêmia e o roubo. Veja o episódio de Vanni Fucci no Inferno de Dante. Gíria da pesada de malandro medieval. Mimetismo. Para uma literatura da crueldade. Como diz Edoardo Sanguinetti, "O Surrealismo é o fantasma que, com toda justiça, persegue as vanguardas e lhes nega um sono tranquilo". Com a costela do Kapitalismo foi criada a Panacéia Socialista. O Forró Nuclear é a medida da Riqueza das Nações. As soluções em Poesia são individuais e não coletivas. Eu estou com Gilberto Vasconcelos: depois que joguei a obra completa de Marx pela janela, comecei a entender o Brasil. Fora isto o seguinte: Poesia é uma forma de conhecimento que vê através de objetos opacos como uma viagem de LSD e estados mediúnicos de levitação, Xamanismo, linguagem da Sibila de Cumas e cantos de caça de povos "primitivos", poesia é uma atividade lúdica em que está empenhada sua vida, sua morte, a dor, a felicidade, e principalmente o jogo. O jogo gratuito de todas as coisas. Por acaso, eis a origem de todas as coisas, diz Nietzsche. Não devemos excluir autoritariamente como censor barato nem os que se dizem marginais e não são e nem os que pensam que são marginais e são escriturários. A Poesia é a mais fascinante orgia ao alcance do homem. E como diz Hegel, "A Orgia báquica da história será vivida por cada um dos seus membros".

Publicado em 28/02/82 no Folhetim.
Roberto Piva.