Tuesday, September 30, 2008

ARQUÍLOCO


Arquíloco

---Por Celina F. Lage

fr. 1 W
Eu sou servidor do senhor Enyálios
e conhecedor do amável dom das Musas



fr. 3. W
Certamente não muitos arcos serão armados, nem sucessivas
fundas, quando Ares conduzir o combate
na planície. Será origem de muitos gemidos a obra das espadas,
pois deste tipo de luta são conhecedores aqueles
soberanos da Eubéia, famosos por suas lanças.



fr. 16 W
A Fortuna e o Destino, ó Péricles, dão tudo ao homem



fr. 120 W
Para iniciar o belo canto do senhor Dionysos
sei o ditirambo, eu que tenho a mente fulminada pelo vinho.




fr. 177 W
Ó Zeus, pai Zeus, é teu o império do céu.
Entretanto, tu tens os olhos sobre as ações criminosas
e corretas dos homens e a ti preocupa
tanto o excesso quanto a justiça das bestas.



fr. 191W
Tal desejo de amor, revolvendo no fundo do coração,
muita névoa sobre os olhos difunde,
arrebatando do peito as ternas entranhas.



---Por Teodoro R. Assunção

fr. 2 W
na lança meu pão amassado, na lança o vinho
Ismárico: bebo na lança inclinado



fr. 5 W
Um Saio alegra-se com o escudo que, junto a um matagal,
arma irrepreensivel, deixei não querendo.
Mas salvei a mim próprio! Que me importa aquele escudo?
Que suma! de novo comprarei um não pior


---Por Maria Olívia Q. Saraiva

fr. 8 W
Esimides! preocupando-se com a censura do povo,
ninguém experimentaria mesmo muito de agradável.


fr. 11 W
Pois, nem irei remediar algo chorando, nem pior
irei torná-lo seguindo prazeres e festas.


fr. 13 W
Zombando do lastimável luto, ó Péricles, nenhum cidadão
Se alegrará com festas, nem a cidade;
É que, àqueles, uma onda do ruidoso mar
levou e inchado de dor temos o
pulmão. Os deuses, porém, para males incuráveis,
ó amigo, a poderosa resistência deram como
remédio. Ora um ora outro tem este mal; agora para nós
voltou-se, gememos por uma sangrenta ferida,
e logo a outros sucederá. O mais rápido possível
resisti, afastando o choro próprio de mulheres.


fr. 14 W
Glauco, um homem mercenário é amigo só enquanto luta.


fr. 134 W
Pois não é nobre injuriar aos homens que morrem.

DIÁRIO


Tremo ao pegar na chávena de café. A funcionária até ficou assustada. Estou de regresso à Faculdade de Letras. Depois dos UHF cá estou eu. E a menina bonita que estava a um canto a ler o jornal já se foi. Já não conheço ninguém. Nem sei se aqui já começaram as aulas. Sinto-me verdadeiramente na Grécia Antiga. Entre filósofos e poetas a dialogar. Havia escravos mas agora também os há. Este apelo à não-razão que eu faço já Platão via nos poetas- "pois estão fora da sua razão- mas é a própria divindade que fala e que se faz ouvir através deles". A divindade está nos poetas e nos declamadores. A divindade está em mim, cara amiga. Nem sempre, claro. A divindade, se nada mais me restar, a divindade. Loucos divinos, eis o que somos. Loucos divinos.

PLATÃO, ÍON


Falam Sócrates e Íon

Todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esses belos poemas; e, igualmente, os bons poetas líricos, (...) não dançam senão quando não estão em si, também os poetas líricos não estão em si quando compõem esses belos poemas; mas, logo que entram na harmonia e no ritmo, são transformados e possuídos como as bacantes que, quando estão possuídas, bebem nos rios o leite e o mel mas não quando estão na sua razão, e é assim a alma dos poetas líricos.
O poeta é uma coisa leve, alada, sagrada e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir óraculos.

Sunday, September 28, 2008

HAKIM BEY





A Arquitectonalidade da Psicogeografia ou os Hieróglifos da Deriva
(in memorian Guy Debord)

*Hakim Bey

[english]


Obscuras & misteriosas grutas nas quais eles entram, imitando serpentes - espaços de regresso a uma intimidade que "há muito, muito tempo" foi estilhaçada pela memória - pela simultânea reiteração & lentidão da memória - essa faculdade da consciência humana "próxima do divino". Mas não se diz que "perdoar é humano, esquecer é divino"? Na reiteração ritual ou na lembrança (dhikr)1 dos sufis, esquece-se o "eu" precisamente para anular o Eu; - deste modo re-lembrar é anular a separação, e este apagamento é uma espécie de esquecimento. (Em certos edifícios chave Islâmicos, como o Alhambra, a reiteração do dhikr como texto caligramático, torna-se na própria definição do espaço construído como um dispositivo mnemónico ou "Palácio da Memória" - não ornamento, mas a própria base ou o princípio-da-precipitação-dos-cristais da arquitectura.)
"Desde que nós somos Jesus Cristo" como anunciou um dos Irmãos do celebrado livre Espírito, "a única questão é que aquilo que já é perfeito em nós, deve ser reiterado...". Este processo, todavia, conduz a uma paradoxal des-aprendizagem - e por isso à perda do medo – assim, uma pessoa pode "deixar-se conduzir pelos seus sentidos, como uma criança". Assim, a caverna representa a inconsciência; - o objectivo, contudo, não é perder a inconsciência mas recapturar aquilo de que a inconsciência nos separou, aquilo que a consciência "deturpou". Deste modo, dentro da própria gruta negra da memória, devem ser paradoxalmente inscritos - imagens-chave são reiteradas (literalmente repetidas em alguns casos como num palimpsesto ou por incisivos desenhos sobrepostos) - imagens que representam perda de intimidade, como um panteão de animais ("com os quais é bom pensar")2 - cada animal uma graça especial ou uma função "divina". Assim, a caverna torna-se no primeiro espaço arquitectónico intencional, a intersecção da inconsciência (a beatitude da "Natureza") & consciência (memória, reiteração).

Desde Platão, fomos ensinados a venerar a anamnese - mas recuemos à caverna pré-Platónica, a gruta paleolítica, para recuperar a dialéctica positiva da amnésia - sem a qual a memória se torna simplesmente numa maldição, coagulando por fim como História (o grau zero da memória como asfixia): a primeira cidade (Çatalk Hüyük) já se estrutura em grelha, a própria antítese da estética da gruta disforme, com os seus meandros & espaços extraordinários, estalactites & estalagmites fundidas - a sua organicidade (que se expressa em todo o caso como vida mineral). As cidades de Sumer & Harapa que foram igualmente delineadas como grelhas rígidas, abstracções cruéis de linearidade. Desenhar uma linha é separar, criar uma hierarquia espacial (entre sacerdote & povo, ricos & pobres, excesso & excassez) e para definir o topia da memória contra o obscuro inconsciente da tribo, a caverna utópica, a organicidade selvagem. Aqui, o tertium quid ou coincidentia oppositorium (entre "gruta" & Babilónia) pode aparecer na cidade medieval (que sobrevive ainda em alguns lugares do mundo Islâmico) onde a excessiva crueldade da grelha é apaziguada - não apagada, mas atenuada - pelo registo de um espaço em consonância com o modelo de uma árvore ou do delta de um rio (caótica bifurcação oscilando com complexidade baseada em "atractores estranhos" 3 intra-dimensionais) – um urbanismo do orgânico, da estética, & do complexo ou plural (por oposição ao inorgânico, ideológico, & simples ou total).

A cidade medieval é uma gruta por extrusão. Algumas destas cidades introduziram sumptuosos cortejos alegóricos ou paradas, nas quais grandes complexos de símbolos (composições de hieróglifos) eram construídos & dispostos ou transportados pelo labirinto de ruas. Mitos & lendas eram encenadas - por vezes o Senhor Feudal desempenhava o papel de "Senhor Feudal", vagueando por um palco de ruas, com personagens simbólicas (como Bloom em Nighttown), renovando assim a Cidade como o seu Herói de eleição, submetido à iniciação do casamento ritual com a deusa urbana.

Aqui a Cidade Livre adquire uma consciência sincrónica & lúdica de si mesma hic et nunc, em vez de sucumbir ao diacronismo miserabilista da violência do poder. Nesta Cidade Hermética encontramos o passado/a origem ou o ventre materno dos Livros Simbólicos alquímicos, e a narratividade de um Bosch ou Breughel. Aqui, a memória perde o seu peso & assume um aspecto folclórico, carnavalesco (o festival como reiteração do prazer) com formas construídas que se apropriam (através do desenho ou através dos acidentes de declínio & acreção) das formas de seios, falos, ventres, pedras & água, musgo & flores, até de água & luz.

A cidade-grelha babilónica quer que a memória persista através dos tempos - tempo suave & vazio - mas como mostrou Dali, a memória persiste apenas na deliquescência do tempo medido. A cidade medieval - hermética (como a Green Jerusalém de Blake) preserva a memória mas de uma forma "desordenada" - como compota akashic4 - tempo que é texturado & cheio. "Babilónia" preserva a ordem (ou algo mais) - mas o que acontece aí à memória? Não foi transmutada no venenoso formaldeído da História, o re-iterado da nossa pobreza & do poder deles, mito taxinómico da classe dirigente?
Quem nos pode criticar por albergarmos quer um desejo de insurreição & nostalgia das estreitas e ventosas alamedas, escadas sombrias, ruas cobertas & túneis, estrumeiras & adegas de uma cidade que se projectou a si própria - organicamente, incoscientemente – numa estética de festiva & secreta convivialidade, & da curvilínea mutabilidade neguentrópica da própria memória?

O urbanismo psíquico dos anos 60 constituiu uma outra tentativa de recuperaração da memória construída para este projecto "Romântico" - rus in urbe – como enunciou F. Law Olmstead - "O campo na cidade" – a reintrodução do eterno "barroco" (como na "pérola barroca") 5 ou forma espontânea - (como as miraculosas grutas fungiformes de cinábrio do Taoísmo Mao Shan, criadas pela energia Imaginal do Perito - que é também a "divina" espontaneidade, inconsciência & esquecimento da natureza. Um projecto para os construtores de uma No Go Zone6 do futuro próximo: - a cidade da resistência psicogeográfica, da anti-grelha, da arquitectonalidade da deriva, o espaço de festa - e a Caverna da Memória Fluída. Pedra & água - o devaneio do bardo, o esquecimento dos deuses.

Notas:

1 O “chamamento”; a invocação do nome de Deus; em algumas confrarias misticas, prática ritual de busca colectiva do extase. (N.T.)

2 Ver Levi-Strauss, O Totemismo Hoje, Perspectivas do Homem/Edições 70, Lisboa (p.114): “Compreende-se enfim que as espécies naturais não são escolhidas (como tótemes) por serem ‘boas para comer’ mas porque são ‘boas pra pensar’.” (N.T.)

3 No estudodos sistema dinâmicos um atractor é um ponto, curva ou espaço para onde todas as trajectórias são conduzidas. Um atractor estranho é um atractor sobre o qual as trajectórias vizinhas divergem uma da outra e que tem dimensão fractal. (N.T.)

4 Akashic tem origem no Sânscrito akasa que se refere a uma essência indeterminada como espaço ou etér. Na teosofia refere-se a um sistema de armazenamento universal que regista qualquer pensamento, palavra ou acção que ocorreu desde o inicio do universo. Os registos são feitos numa substância, designada por akasha ou éter sonoro. A palavra akasha tem origem em duas palavras tibetanas: aka, espaço ou lugar de armazenamento e sa-ski, secreto ou oculto. (N.T.)

5 Tipo de pérola com forma irregular. (N.T.)

6 Ver: http://www.hermetic.com/bey/nogozone.html (N.T.)

*Hakim Bey é terrorista poético, anarquista ontológico e filósofo.

Tradução de Duarte Soares Lema e Sofia Pereira da Silva

POESIA, FILOSOFIA E GAJAS BONITAS


Custa-me ter conversas materialistas. Custa-me falar do que isto custa e do que aquilo custa. Cada vez estou mais longe disso. Estou a ficar num mundo à parte. Sobram os teus olhos. Se não fosse a beleza das mulheres ficava completamente fora deste mundo. Não sei ganhar dinheiro. Não me tenho importado com isso. Acho simplesmente ridículo um gajo andar atrás do dinheiro. Andar atrás de uma gaja ainda ando. Andar atrás de uma bola, jamais. Reconheço que, às vezes, também eu ando atrás do dinheiro mas isso é algo que não me motiva. O que me motiva é andar atrás da criação, da arte, da sabedoria e...das mulheres. Tudo o resto me parece secundário. Essa coisa do trabalho, do esforço, do lutar pela sobrevivência, não me diz respeito. Sabes, estou a ficar um verdadeiro anarquista. Mas um anarquista individualista: não acredito no trabalho colectivo, não acredito nas sociedades ideais, não acredito nas lutas parciais, não acredito na militância. Acredito no grito maldito, acredito na criação, acredito na rebelião mas também nas gajas bonitas. As gajas bonitas têm, mesmo que reprimido pela ideologia dominante, aquele jeito dionísiaco das bacantes, de dançar a noite toda. É preciso derrubar o capitalismo e o Estado! Não mais repressão, não mais polícias, não mais controleiros, não mais exploração, não mais dinheiro, não mais trabalho, não mais tédio! Só poesia, filosofia e gajas bonitas. Eis a nova máxima. Estou a falar do amor, do amor, do amor, love, love, love, love...pega na tua amiga e ama-a!

Friday, September 26, 2008

JORNAIS


Esta merda de aparecer nos jornais, sabes, ficamos convencidos de que somos umas estrelas mas depois passa um mês ou dois e já toda a gente se esqueceu de nós ou então a coisa começa a subir e armamo-nos em vedetas em primas donas e queremos o mundo a nossos pés e queremos todas as gajas boas e bonitas e depois acabamos por perder tudo esta merda de aparecer nos jornais, sabes, já vi o filme e já tenho visto tantos filmes que já nem sei onde me devo situar, sabes, um gajo começa a sentir-se em cima, realmente em cima convencido de que é capaz de tudo convencido de que vai amar os amigos e derrotar os inimigos convencido de que de agora em diante vai ser o paraíso e depois a coisa cai-nos em cima, sabes, cai-nos realmente em cima e não sabemos onde vamos parar, sabes, esta merda de aparecer nos jornais e de pensar que os jornalistas nos adoram e que andam sempre atrás de nós e que toda a gente nos adora, admira e respeita e que as pessoas olham para nós, sabes, é tudo uma ilusão, sabes, quando há alguém que se preocupa connosco e que diz para não ir por aí esse alguém tem alguma razão esta merda de aparecer nos jornais e de te sentires absolutamente livre e de seres o artista que faz tudo o que quer, sabes, isso é muito bonito isso é tão puro e bonito como a mulher que amas que realmente amas e que espera por ti estejas onde estiveres, sabes, quando começas a ver o mundo com outros olhos quando começas a ver a beleza que há nos olhos delas isso é muito bonito e tens razão em te sentires tão em cima e já não pensas só nas mamas nem dás tanta importância ao que sai nos jornais.

Pátio, 26.9.2008

AS GAJAS, AS MAMAS


As gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
que saem
que saltam
que te põem
cheio de tesão
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
que balançam
que tremem
à frente
dos teus olhos
que te põem doido
completamente doido
fora de controle
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
no metro
na rua
em todo o lado
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
coisa divina
absolutamente divina
apetece chupá-las
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
fico sem controle
vou ter um ataque
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
as gajas
as mamas
supremo deleite
viva o criador!

Vila do Conde, Pátio, 26.9.2008