Sunday, June 28, 2009

SUGESTÕES DE LEITURA: CLUBE LITERÁRIO

SUGESTÕES DE LEITURA PARA JANEIRO por António Pedro Ribeiro

“Assim Falava Zaratustra“ - Friedrich Nietzsche, Relógio D’ Água Editores

Longo poema profético, anti-Bíblia, assim se pode caracterizar “Assim Falava Zaratustra”, a obra imortal de Friedrich Nietzsche.
“Zaratustra” é uma crítica ao cristianismo e às sociedades do rebanho. Não se dirige ao que se dilui na multidão, ao que age sempre como os outros agem, ao que não tem rosto, ao que não possui o poder de uma vontade afirmativa. Não faz a apologia dos pobres, dos humildes, dos doentes, dos fracos nem promete o Reino dos Céus. O profeta Zaratustra nega o Reino dos Céus e proclama a morte de Deus. A morte de Deus representa o fim e o declínio da formulação de Deus que a metafísica clássica ocidental construiu. A ideia de Deus para o cristianismo corresponde a um sistema de valores que, segundo Nietzsche, o homem deveria abandonar e substituir por outro. A resignação, a docilidade, a simplicidade e o servilismo seriam substituídos pelo orgulho, pelo egoísmo, pela vontade de potência, pela sensualidade e pela nobreza de espírito. O homem procede à transvalorização de todos os valores. Mas não qualquer homem. O homem superior, o super-homem. Zaratustra fala aos vencedores, aos afirmadores da vida, aos que querem viver o aqui e o agora, aos que têm a Terra como único reino. Zaratustra opõe-se aos sacerdotes e aos moralistas, aos “acusadores da vida”, aos que negam e detestam a vida, aos que reprimem e condenam a volúpia, aos que associam as paixões e as pulsões vitais ao diabo e ao pecado, aos que pregam o Outro Mundo. Celebra a carnalidade, a vida vivida, a sensualidade, o simples gozo de existir.
“Zaratustra” é também um hino à liberdade, à liberdade de criação, ao espírito livre. O homem superior é um menino e um grande bailarino. “É aquele que não tem preconceitos, que faz da vida um jogo permanente, que se passeia na corda-bamba do devir”. O menino, a criança é o criador de novos valores, é o espírito livre. O querer liberta. A vontade que cria é libertadora. O homem superior é o homem livre.



“Memórias de um Alcoólico“ - Jack London, Edições Antígona

“Os devotos de John Barleycorn são assim. Quando lhes bate à porta a boa sorte, bebem. Quando não têm sorte, bebem na esperança de boa sorte. Se a sorte é madastra, bebem para esquecer. Se encontram um amigo, bebem. Se discutem com um amigo e perdem essa amizade, bebem. Se os seus assuntos amorosos são coroados de sucesso, ficam tão felizes que é obrigatório beberem. Se forem abandonados, bebem pela razão contrária. E se não têm nada para fazer, pois bem, tomam uma bebida, seguros de que, quando tiverem tomado um número suficiente de bebidas, as larvas começarão a rastejar nos seus cérebros e não terão mãos a medir com coisas para fazer. Quando estão sóbrios querem beber, e, quando bebem, querem beber mais.”
“Memórias de um Alcoólico” de Jack London é um tratado quase sociológico e sem falsos moralismos acerca do consumo do álcool e do alcoolismo. London descreve magistralmente a vida de “saloon” no início do séc. XX e a sua relação com o álcool. A bebida como sinal de virilidade e de sociabilização, a bebida ao lado da aventura e do romance, a bebida como símbolo de camaradagem, a dependência e os efeitos, está tudo na prosa de London que, em conclusão, defende a proibição do álcool.



“Guy Debor“ - Anselme Jappe, Edições Antígona


Anselm Jappe analisa o percurso teórico do principal mentor da Internacional Situacionista, Guy Debord.
Vivemos numa sociedade-espectáculo, uma sociedade marcada pela contemplação passiva de imagens, escolhidas por outros, que substitui a vivência e a capacidade de modificar os acontecimentos por parte do individuo. O espectáculo torna a comunicação exclusivamente unilateral, é aquele que fala enquanto os outros se limitam a escutar. A separação está na base do espectáculo. Às celebridades, aos actores ou aos políticos cabe representar os aspectos ausentes da vida pobre e desinteressante dos restantes indivíduos. Em todas as esferas da vida a realidade é substituída pela sua imagem.
Não é do homem e das suas obras que o espectáculo trata mas da mercadoria e das suas paixões. Toda a vida humana se submeteu às leis da economia. A Internacional Letrista, os situacionistas e a arte, a crítica da vida quotidiana, os situacionistas e os anos 60, Maio de 68 e depois e o mito Debord são outros dos temas abordados.

A VIDA NÃO É ISTO


Agora anda tudo com medo dos chineses
os chineses controlam o mercado
os chineses vão ser os novos donos do mundo
morte aos chineses!
O povo fala e fala
o povo está contaminado pela linguagem económica
instala-se o medo
o pessoal tem medo
agora são os chineses
puta de vida imbecil que esta gente leva!
Comer, beber
arrotar disparates
e ser comido pelo patrão e pelo governo
e pelos economistas
sempre atrás dos tostões e do "Euromilhões"
puta de vida imbecil que esta gente leva!
Não, não nasci para isto
estou acima disto
vá lá que ainda há umas meninas simpáticas
mas é pouco
não chega
a vida não é isto.

Ando de Vilar do Pinheiro a V.N. Telha, a Pedras Rubras e faço uma longa viagem. Entro nos tascos como se fosse Cristo, como se fosse um profeta. Influências da Bíblia que ando a ler há dias. Não posso estar sempre no mesmo sítio. Não posso estar sempre na "Motina", D. Rosa. Na televisão é só gajas boas. Apetece comê-las. Olho para as horas. Seriam horas de me embriagar se houvesse dinheiro ou se o àlcool fosse de borla. Só me posso embriagar de café. E essa é a droga que me basta para escrever.

Saturday, June 27, 2009

HENRI MICHAUX

«Maldito»
Henry Michaux
(Namur, 24 de Maio de 1899 - Paris, 18 de Outubro de 1984)

Dentro de seis meses ao mais tardar, ou se calhar amanhã, estarei cego. É a minha triste, triste vida que continua.

Os que me puseram no mundo ham de mas pagar, dizia eu comigo antigamente.,Até hoje ainda nom pagaram. Porém, eu agora tenho de me apartar dos meus dous olhos. A sua perda definitiva há de me livrar de atrozes sofrimentos, é tudo o que se pode dizer.

Depois é só o tempo de fazer inutilmente algumas experiências com nitrato de prata, e acaba-se como eles.

Há nove anos, a minha mae disse-me: «Preferia que nom tivesses nascido».

Friday, June 26, 2009

JIM MORRISON


Depois destes anos todos chego à conclusão que é com Jim Morrison que me identifico mais. Sucessor e leitor dos beatnicks, Morrison já dizia que "se a minha poesia pretende atingir alguma coisa, é libertar as pessoas dos limites em que se encontram e que sentem". Jim foi um revolucionário mas não um revolucionário tradicional. O poeta dos Doors apelou para o caos, não tinha uma cartilha pré-definida, não tinha de estar sempre lúcido nem de se portar sempre bem. Apelou para o caos porque entendia que era esse o caminho para a luz, para a liberdade. Deu ao rock a dimensão teatral. Era um xamã, aquele que entrava em contacto com os deuses e com a loucura. Não se contentava em cantar a paz e o amor como os hippies. Achava-os ingénuos. Queria chegar lá mas achava que tínhamos de atravessar o caos, "atravessar para o outro lado". Percorreu a estrada do excesso para alcançar a sabedoria, como indicou William Blake. Quis ultrapassar os limites. Entendia que a vida não se resume a uma fórmula única e irreversível, ao ganhar dinheiro. Revoltou-se contra a autoridade, contra a polícia. Foi um espírito livre, um menino e um bailarino no sentido nietzscheano.

Thursday, June 25, 2009

MAIAKOVSKI

a confraria dos escritores / vladimir maiakovski


Sem dúvida jamais me habituarei
a instalar-me na esplanada do «Bristol»,
beber chá,
contar histórias verso a verso –
tenho vontade de entornar os copos
e de trepar às mesas.
Escutai,
confraria literária!

Estais aí sentados,
os olhos mergulhados na chávena de chá.
Os vossos cotovelos estão luzidios à força de escrevinhar.
Levantai os olhos dos vossos copos por terminar.
Libertai as vossas orelhas das guedelhas.

Vós
colados ao papel
das paredes,
meus caros,
que fazeis vós com o verbo?
Sabíeis
que quando não escrevia
François Villon
era bandido?

Vós
que sois prudentes
mesmo para agarrar numa faca de cortar papel,
pensar que é a vós que está confiada a beleza do mais magnífico dos séculos!

Escrever ainda?
Hoje
a vida
é cem vezes mais interessante
mesmo a do último ajudante de notário.

Senhores poetas,
não estais já fartos
das páginas,
dos palácios,
do amor,
dos bosques de lilás?
Se chamam
criadores
a pessoas como vocês –
então quero lá saber da arte em geral.

Prefiro abrir uma loja.
Irei à Bolsa.
Os flancos eriçados com espessas toalhas.
Irei esvaziar a alma
berrando canções de bêbado
num privado de cabaré.

Será que uma pancada pode ter êxito sob os tufos de cabelo?
Um só pensamento
habita estes pêlos que nunca mais acabam:
«Pentear-se? Para quê?!
Por um momento não vale o esforço,
quanto a estar
eternamente bem penteado
é impossível».



Vladimir Maiakovski
33 Poesias
Quasi Edições, 2008
tradução de Adolfo Luxúria Canibal
por luís f. nunes no dia 25.6.09 0 comentários

retirado de http://mal-situados.blogspot.com

Wednesday, June 24, 2009

O POETA


Nunca tiveste jeito para a vida prática
sempre foste desastrado com as ferramentas
e com as tarefas domésticas
além disso, sempre foste preguiçoso
o teu pai chamava-te a atenção
mas, se calhar, não foi para isso
que realmente vieste ao mundo
se os poetas tivessem o reconhecimento
que tinham na Grécia
a esta hora já eras um rei
nem sequer és um poeta como os outros
daqueles que escrevem uns versos
e publicam uns livros
e se contentam em aparecer nas boas editoras
e nas Feiras do Livro
e nos jornais e na televisão
tu queres mais
tu queres a glória
mas também o sublime
o espírito, a divindade
é isso que te mantém vivo
é isso que te faz correr
não precisas de estar com falsas modéstias
és um poeta
daqueles que também são profetas
daqueles que pregam na praça pública
daqueles que falam do alto da burra,
como dizia o teu pai
é por isso que estás aqui
é por isso que permaneces aqui
até que o espírito te leve
para outras paragens.